Valter Pomar, sobre a pesquisa Genial/Quaest: Como fechar a boca do jacaré?

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Ilustração: Freepik

Pesquisa Genial/Quaest: como fechar a boca do jacaré?

Por Valter Pomar, em seu blog

Teria sido sido melhor que a nova pesquisa Quaest (ver ao final) fosse divulgada no dia primeiro de abril.

Assim fora, certamente teria prevalecido a graciosa performance dos violinistas do Titanic.

Mas como a pesquisa saiu hoje, 2 de abril, as reações entre os dirigentes petistas com quem tenho contato foram mais equilibradas.

Entre essas reações, cito três.

A encantadora tranquilidade dos que continuam seguros de que estão fazendo a coisa certa e que, portanto, depois de amanhã tudo será melhor do que anteontem.

O silêncio atordoado dos que não sabem o que fazer, quase em compasso de espera para o desespero e/ou a depressão.

E o entusiasmo frenético pela bala de prata, aquela medida que supostamente vai virar o jogo.

Embora compreenda a lógica de cada uma destas posições, estou na turma minimalista, adepta do manual do mochileiro das galáxias: não entrar em pânico e seguir o protocolo.

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Para começo de conversa, fazer algo que não fazemos há meses, para não dizer anos: convocar uma reunião presencial do diretório nacional do PT, com dois dias de duração, para fazer uma análise da situação e discutir como reagir.

Afinal, está óbvio que nosso governo precisa de ajuda. Mas para dar esta ajuda, para que o Partido cumpra seu papel, é preciso que a direção nacional comece fazendo algo óbvio: encontrar, refletir e deliberar.

É preciso por fim ao modus operandi que vem de antes, mas foi aprofundado durante e depois da pandemia, a saber: o de fazer reuniões pro forma da direção nacional do Partido, onde o debate político é mal feito, resultando em resoluções elaboradas e aprovadas no afogadilho, que as vezes parecem ter como principal objetivo demonstrar que a maioria do Diretório apoia inclusive os erros do governo.

Isto posto, acerca do mérito, a pesquisa confirma o curso das anteriores, a saber, crescimento da desaprovação.

Comprovando que existe um problema político, não apenas um problema de comunicação. Motivo pelo qual, como já dissemos algumas vezes, a situação tenderia a piorar antes de melhorar.

Uma dúvida é: vai mesmo melhorar? E ainda: melhorará o suficiente e em tempo hábil para vencermos as eleições de 2026?

Em tese, sim. Podemos vencer em 2026. Aliás, podemos vencer em melhores condições do que em 2022.

Entre outros motivos porque parte expressiva da insatisfação está entre os que votaram em Lula em 2022, assim como entre os que não votaram em ninguém. Portanto, pessoas que podem ser mais facilmente conquistadas do que o eleitorado do cavernícola.

Mais “fácil” apenas e tão somente se tivermos a disposição de polarizar contra o neoliberalismo das duas direitas, tanto da tradicional quanto da extrema. Especialmente em momentos de crise, sem polarização e tesão não haverá solução nem salvação para a esquerda!

Mas para melhorar o suficiente e em tempo hábil, é preciso – entre muitas outras coisas – disposição para dar cavalo de pau na linha política do governo.

Além de ser necessário parar de acreditar que existe, em algum lugar, alguém que supostamente sempre acerta e cuja proverbial genialidade vai nos tirar dos palpos de aranha.

A inteligência coletiva do petismo saberá fechar a boca do jacaré.

Copio e colo abaixo um “fio” do Felipe Nunes, publicado no X. Não por concordar, mas por dar um quadro sintético da coisa toda:

1/ Pesquisa Genial/Quaest mostra que a desaprovação do governo Lula foi de 49% para 56% entre jan/25 e mar/25; enquanto a aprovação caiu de 47% para 41%. O esforço de comunicação com o anúncio de novas medidas ainda não gerou os efeitos positivos na popularidade do governo. Segue o fio pra entender as razões…

2/ A queda na aprovação aparece de forma simétrica em todas as regiões do país. No Nordeste, principal reduto eleitoral de Lula, a vantagem que era de 35 pp caiu para 6 pp entre Dez/24 e Mar/25. No Sudeste, a desaprovação está 23 pp maior que a aprovação. No Sul, a diferença é de 30 pp.

3/ Entre as mulheres, é a primeira vez que a desaprovação chega a 53% e supera a aprovação, que está em 43%. O gap eleitoral entre homens e mulheres foi decisivo para a vitória de Lula em 2022. Entre os homens, a desaprovação cresceu e chegou a 59% e a diferença de gênero diminuiu.

4/ A aprovação está em 34% para quem tem renda familiar de mais de 5 salários, em 36% para quem tem renda de 2 a 5 SM e chegou a 52% para quem tem renda de até 2 salários. O impressionante, neste caso, é a mudança drástica nesse último grupo. A vantagem em aprovação que já foi de 43 pp em jul/24, está em 7 pp.

5/ Na comparação entre os tipos de eleitores, a desaprovação ao governo Lula chegou a 92% entre eleitores do Bolsonaro, a 62% entre quem não foi votar ou votou branco/nulo, e a 26% entre os eleitores de Lula. Há, portanto, 1/4 do eleitorado de Lula insatisfeito com o seu governo neste momento.

6/ Parte da explicação para a alta desaprovação do governo está na quebra de confiança do eleitorado com o presidente Lula. Além de não conseguir cumprir as promessas de campanha, cada vez menos gente vê o presidente como bem intencionado.

7/ E ao contrário do que acontecia no passado, aumentar a exposição de Lula por meio de entrevistas e eventos não tem conseguido produzir melhora na percepção sobre o presidente. Metade do país acredita que tais aparições tem piorado a percepção sobre ele.

8/ A incapacidade de reverter o quadro de desaprovação também é fruto da piora na percepção sobre a economia. No último mês, saiu de 39% para 56% o percentual que afirma que a economia piorou no último ano.

9/ Boa parte dessa percepção negativa está relacionada ao alto patamar do preço dos alimentos nos supermercados…

10/ …ao aumento na percepção de que os combustíveis estão mais caros nos postos de gasolina…

11/ …o que produz uma percepção generalizada de que o poder de compra dos brasileiros hoje é menor do que era a um ano atrás.

12/ Soma-se a esses fatores a baixa eficácia política dos programas de governo. Embora 67% dos brasileiros reconheçam que algum programa do governo impacta de forma positiva sua vida hoje, com destaque para o Bolsa Família…

13/ …a maioria acredita que os programas sociais do governo são direitos, que não serão retirados por nenhum governo. Ou seja, acabam virando políticas de Estado, que existirão independentemente do governo de ocasião. É o processo de extinção da gratidão automática.

14/ Mas será que Lula consegue virar esse jogo? Considero crucial para essa virada que o governo consiga mudar a percepção majoritária da população de que o Brasil está indo na direção errada.

15/ Além disso, Lula terá que fazer um governo diferente do que vem fazendo nos últimos 2 anos se quiser mudar esse quadro tão negativo. Não dá pra continuar com as mesmas soluções se quiser alcançar resultados distintos.

16/ Há duas medidas concretas que foram tomadas recentemente pra tentar mudar esse quadro. Primeiro veio a extinção na taxação de alimentos importados. A medida ainda não é tão conhecida e divide o eleitorado sobre sua eficácia

17/ Entre quem desaprova o governo, 37% acreditam que a medida vai ajudar a reduzir os preços dos alimentos. Mesmo não sendo a maioria, se fizer efeito na percepção, pode alterar a avaliação de um grupo numericamente significativo.

18/ A outra aposta do governo é a reforma da renda. A expectativa de 23% dos brasileiros é que eles sejam integral ou parcialmente beneficiados pela proposta de isenção do governo. Estamos falando de aproximadamente 46 milhões de pessoas que tem a expectativa de algum benefício.

19/ Entre quem acredita que vai passar a ser isento, metade espera que a melhora da renda seja significativa. Entre quem acredita que vai ser parcialmente beneficiado, 35% esperam uma melhora significativa da renda a partir do novo benefício.

20/ A outra parte da proposta tem amplo apoio popular: quase 60% dos brasileiros concordam com a tributação adicional de 10% para quem ganha altos dividendos.

*Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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Zé Maria

Pesquisa de Fruteira de Mercadinho
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