Luis Felipe Miguel: O réu

Tempo de leitura: 3 min

O réu

Início do processo no STF é excelente sinal, mas é preciso reforçar ideia de que a democracia sabe se defender.

Por Luis Felipe Miguel*, no Substack

O fotojornalismo é – como qualquer representação da realidade – uma ferramenta ambígua. Pode se prestar a manipulações e falseamentos, mas também pode encarnar, de fato, a mítica imagem que vale por mil palavras, sintetizando em um instantâneo toda uma conjuntura.

Sim, eu sei: imagens nunca valem mil palavras, já que precisam ser emolduradas por um discurso linguístico, explícito ou tácito, um discurso que, embora possa se legitimar pela referência às imagens, avalistas da veracidade do que se fala, induz a interpretação do espectador – um discurso que realiza a indispensável ancoragem dêitica (referências de tempo, espaço e emissor, que faltam à imagem). Mas me deixem ser hiperbólico.

Como não ver na foto de Erno Schneider, de 1961, um retrato do governo Jânio Quadros, que sinalizava políticas contraditórias e não sabia qual rumo tomar?

E Jair Cardoso, na foto para o Jornal do Brasil em 1981, não desvelou a essência do governo Figueiredo, um general colocado no cargo pelo Exército, que os marqueteiros do regime queriam fazer passar por presidente legítimo?

Foto: Erno Schneider (1961)

 

Foto: Jair Cardoso (1981)

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A foto de Pedro Ladeira na Folha de hoje é um desses momentos luminosos do fotojornalismo. Mostra o réu Jair, cercado por sua claque, se pronunciando logo após a decisão unânime do Supremo Tribunal Federal iniciar o processo contra ele pela tentativa de golpe de Estado.

É um primor de composição, quase como na tela de um mestre renascentista, com Jair em nítido destaque, no primeiro plano, e as cabeças atrás dele sugerindo um triângulo. Mas, sobretudo, a foto capta com perfeição o estado de espírito do réu, que tenta se fazer de ameaçador, mas está mesmo é muito, muito amedrontado.

Foto: Pedro Ladeira (2025)

Afinal, se um mínimo de justiça se fizer, ele pode aguardar não uma, mas várias condenações. Depois do processo pela tentativa de golpe, virão os relacionados aos crimes contra a saúde pública, a disseminação deliberada de informações falsas, ao roubo de joias. Em todos eles, as evidências contra Jair são avassaladoras.

Igualmente expressivos, na foto de Pedro Ladeira, são os semblantes daqueles que acompanham Jair, gente como Carol der Toni, Magno Malta, Rogério Marinho e Marco Feliciano, além do filho Flávio.

É quase como se tivesse um balão de pensamento saindo da cabecinha de cada um – e cada um está pensando em como pode lucrar politicamente com a nova situação.

*Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da UnB. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades – Demodê (@demode.unb). Autor, entre outros livros, de Democracia na periferia capitalista: impasses do Brasil (Autêntica)

*Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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