A ajuda que não ajuda
Por Jair de Souza*
Em vários pontos do planeta, houve gente que entrou em polvorosa com as medidas que o novo governo dos Estados Unidos, comandado por Elon Musk e seu assistente Donald Trump, tomou contra um dos órgãos símbolos do chamado “soft-power” (poder por via suave) do imperialismo desta potência norte-americana.
Sem dúvidas, os efeitos também devem ter sido sentidos por aqui, em nossas terras tupiniquins, por certos dirigentes de algumas ONGs (quase sempre de nomes curtos, simpáticos e despretensiosos), os quais devem estar desesperados para saber como encontrar saídas para a difícil situação em que foram colocados.
É que, de repente, sem os recursos provenientes daquela fonte à qual devem sua própria existência e razão de ser não deve ser um baque fácil de suportar.
Pois é, os imperialistas também têm suas contradições e brigam entre si. Assim, por vezes, um instrumento que sempre esteve a serviço dos valores maiores da grande potência pode vir a ser questionado por outros de seu próprio seio.
Parece ser isto o que está acontecendo neste momento, quando alguns dos mais destacados expoentes imperiais questionam a funcionalidade de um instrumento que há um bom tempo vem sendo utilizado para resguardar e impor os interesses dos Estados Unidos.
No vídeo acima, temos uma curta, mas muito bem fundamentada análise sobre o significado da USAID e quais podem ser as repercussões advindas da nova política de cerceamento de suas atividades.
*Jair de Souza é economista formado pela UFRJ; mestre em linguística também pela UFRJ.
*Este texto não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.
Apoie o VIOMUNDO
Leia também
Tomás Amaral: A agenda neocon via revoluções coloridas e guerras por procuração
Tomás Amaral: A queda da Síria, vitória tática dos sionistas e dos neocons
Comentários
Zé Maria
.
“A Última Falcatrua do [Des]governo de Javier Milei, o ‘Poodle do Império’. ”
A Argentina é um dos países com maior número de adeptos
de criptomoedas na América Latina, possivelmente o maior.
Estima-se que, no ano passado, cerca de 18,9% da população
argentina possuía criptomoedas, o que representa cerca de
8,5 milhões de pessoas em uma população de aproximadamente
45 milhões de habitantes.
Por José Álvaro Cardoso, no Portal Desacato
Javier Milei está envolvido no que pode ser considerado o maior escândalo
de seu governo até agora.
Em 14 de fevereiro, na rede social “X”, Milei enviou mensagem promovendo
a $Libra, uma criptomoeda, completamente desconhecida até o episódio.
Divulgada amplamente em suas redes sociais oficiais, o presidente
da Argentina destacou o $Libra como ‘uma iniciativa privada destinada
a estimular o crescimento econômico no país, através de investimentos
em pequenas empresas e startups’.
Essa criptomoeda foi criada pela empresa panamenha KIP Protocol como
parte do projeto “Viva la Libertad”.
Em seguida à mensagem de Milei, o valor de $Libra saltou de US$ 0,000001
[ou US$ 1/1.000.000 ou US$ 1 x 10⁻⁶ ou 1 Milionésimo de Dólar] para US$ 5,20
[Cinco Dólares e Vinte Cents] em cerca de 40 minutos.
Passado esse tempo, os fundadores, que detinham 70% do total
desse “ativo”, venderam rapidamente suas participações, levando
a uma queda abrupta de 85% no valor da tal criptomoeda.
Em cerca de três horas, calcula-se que aproximadamente 44.000 pessoas
foram afetadas, com prejuízos totais em torno de US$ 251 milhões.
Os desenvolvedores do projeto e alguns especuladores próximos [a Milei]
teriam obtido lucros de aproximadamente US$ 87 milhões durante a súbita
desvalorização da moeda (os números variam bastante, a depender da
fonte).
O ESQUEMA
O esquema é simples:
1] o presidente anuncia o produto;
2] os primeiros que compram (os fundadores),
fazem-no por valor insignificante (0,000001); e
3] após uma valorização explosiva, em função da procura,
vendem o “ativo” por um preço milhões de vezes superior.
Diante da repercussão negativa, 5,5 horas após ter enviado a mensagem,
Milei removeu-a, afirmando não estar plenamente informado sobre os detalhes do projeto antes de promovê-lo.
As indicações são a de que foi uma trama armada para tirar dinheiro de incautos, usando a influência de Milei, especialmente entre os jovens.
A Argentina é um dos países com maior número de adeptos de criptomoedas
na América Latina, possivelmente o maior.
Estima-se que, no ano passado, cerca de 18,9% da população argentina possuía criptomoedas, o que representa cerca de 8,5 milhões de pessoas em uma população de aproximadamente 45 milhões.
Para efeito comparativo, no Brasil o número de usuários é maior em números
absolutos (cerca de 26 milhões), porém em termos relativos o maior número
de pessoas com algum tipo de ativo digital na América Latina, é a Argentina.
Há duas possíveis interpretações para o episódio:
1) Milei é um idiota completo, que não sabia do esquema
e apenas enviou a mensagem por ingenuidade; ou
2) Milei participou do esquema e, portanto,
ganhou dinheiro com a falcatrua.
Qualquer interpretação é muito negativa para o presidente da Argentina.
Se ele realmente não sabia do esquema e apenas fez propaganda da
criptomoeda sem compreender suas implicações, isso indicaria falta de
discernimento e um erro grave de comunicação por parte de um chefe de
Estado.
Essa hipótese, tecnicamente, deveria ser descartada porque Milei[, que
é economista,] já trabalhou como professor em cursos relacionados
a criptomoedas.
Em 2020, por exemplo, ele integrou o corpo docente do instituto N&W
Professional Traders, tendo ministrado a disciplina “Introdução aos
Investimentos”.
A hipótese de que Milei foi cúmplice ou se beneficiou com o esquema,
é reforçada por vários relatos de que membros do governo e empresários
ligados ao projeto lucraram milhões de dólares minutos após a valorização
do produto.
Logo após o episódio, surgiram muitas denúncias de que Hayden Mark Davis,
criador da tal $Libra, teria afirmado em mensagens privadas que controlava
Javier Milei por meio de subornos pagos a Karina Milei, irmã do presidente e
Secretária-Geral da Presidência.
Apesar das negativas do governo, documentos revelam que Davis esteve
no palácio presidencial em pelo menos três ocasiões nos últimos meses,
em reuniões organizadas por Karina.
Como uma prova a mais de que a Argentina está em uma encalacrada,
o Senado do país votou contra a criação de uma comissão especial para
investigar o escândalo.
Milei já cometeu muitos crimes desde o início de sua gestão, não faltariam
razões para abrir um processo de impeachment.
Por exemplo, alguns meses depois de iniciado o governo, em agosto de 2024,
foi acusado de reter cerca de 5 milhões de quilos de alimentos destinados
a programas sociais, em uma conjuntura na qual mais de 50% da população
da Argentina se encontra em situação de pobreza, segundo os indicadores
do INDEC (Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina).
Na ocasião, após muitas denúncias do movimento popular e da imprensa
independente, a Justiça argentina ordenou a distribuição imediata dos
alimentos.
Apesar do fato impactar sobre a vida de milhões de argentinos,
nada aconteceu ao governo Milei.
As denúncias de que altos funcionários do governo solicitam subornos,
inclusive para permitir a aproximação com o presidente, vêm sendo feitas
desde setembro de 2024.
Para entender o que acontece atualmente na América Latina, imaginem
se o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, tivesse enviado postagem
incentivando a compra de uma criptomoeda sem lastro, criada minutos
antes da mensagem.
Imaginem também se um parente muito próximo de Maduro tivesse se
reunido várias vezes antes com o dono do empreendimento anunciado.
Imaginem se vários jornalistas e empresários afirmassem que, para se
reunir com Maduro, precisassem depositar, antes, 5 mil dólares numa
conta indicada pelo secretário do presidente.
Numa situação dessa, não podemos ter dúvidas: o governo venezuelano
seria sitiado, Maduro enfrentaria imediatamente uma pressão diplomática
extrema, especialmente dos Estados Unidos, Europa e países vizinhos.
Isso provavelmente resultaria em sanções ainda mais pesadas contra o país,
nações da região, especialmente Argentina e Chile (talvez Brasil) exigiriam
rapidamente investigações internacionais ou mesmo sua renúncia imediata.
A moribunda oposição venezuelana ganharia força, usando o escândalo
como prova de corrupção generalizada do governo.
O imperialismo, muito provavelmente, em poucas horas organizaria uma “revolução colorida” [financiada pela USAID] na Venezuela.
“POODLE DO IMPÉRIO”
Mas com Milei, é diferente.
É verdade que o presidente enfrenta mais de 100 processos judiciais
relacionados ao escândalo da criptomoeda, alguns nos EUA, que incluem
acusações de fraude, manipulação de preços, estelionato e negociações
incompatíveis com a função pública.
Mas Milei é uma espécie de “Poodle do Império”.
Enquanto suas ‘Loucuras’ [Mal Intencionadas] servirem de alguma forma
aos que realmente detêm o Poder e o Dinheiro, e enquanto o Movimento Social e Popular continuar em ‘Estado de Coma’ na Argentina, ele continuará
no Cargo.
DESREGULAMENTAÇÃO & DESTRUIÇÃO DE DIREITOS
A Desregulamentação da Economia Argentina, a Destruição de Direitos
Trabalhistas, a Subserviência ao Grande Capital, a Promessa de Entrega
de Ativos Essenciais da Argentina, como Lítio e Petróleo, para os Grandes
Capitais Internacionais, está totalmente de Acordo com os Interesses do
Sistema Financeiro Internacional.
Milei acabou de converter o maior banco público da Argentina, o Banco Nación, em uma Sociedade Anônima.
É um primeiro passo para privatizar a instituição, pois, embora o Estado
tenha mantido a maioria das ações, essa mudança abre caminho para
a futura entrega do banco para o setor privado.
Intenção esta que o governo não esconde.
A situação na Argentina é comparável a uma bomba-relógio.
O país apresentou uma contração econômica de cerca de 3,5% no ano
passado, decorrência direta das políticas de Milei.
A inflação anual atingiu 211,4% em dezembro, posicionando a Argentina
entre os países com a maior inflação da América do Sul e uma das maiores
do mundo.
A dívida pública representa 155% do PIB, um altíssimo nível de endividamento,
incompatível com um país que só dispõe de US$ 24 bilhões em reservas
internacionais.
Há denúncias, inclusive, de que o governo esteja utilizando as reservas internacionais para enfrentar as consequências financeiras do escândalo de $Libra.
A complacência da mídia internacional com o escândalo da criptomoeda
indica também que, para o imperialismo no contexto atual de crise do
Capitalismo, Milei é o tipo ideal de presidente para países do subcontinente.
Dirigentes reformistas e nacionalistas, e que lutam por soberania política
e econômica para seus países, mesmo que muito moderados, devem ser
inviabilizados, de um jeito ou de outro.
O nível de crise do sistema imperialista, especialmente com a mal disfarçada
derrota histórica que sofreram na Ucrânia, requer governantes subservientes,
puxa-sacos dos poderosos e que odeiam o seu próprio povo.
*José Álvaro Cardoso é Economista do DIEESE
e Colunista do Portal Desacato.
https://desacato.info/a-falcatrua-do-governo-milei-por-jose-alvaro-cardoso/
.
Zé Maria
https://www.dailymotion.com/video/x9ercnq