Hugo Souza, sobre o caso Glauber Braga: Vingança com orçamento secreto se paga?

Tempo de leitura: 4 min
Glauber Braga se defende na Comissão de Ética da Câmara dos Deputados. Foto: Lula Marques/Agência Brasil

Caso Glauber Braga: vingança com orçamento secreto se paga?

O deputado que mais se bateu contra o esquema do orçamento secreto de Arthur Lira é agora alvo de vingança encomendada e, pelo que indicam dados trazidos pelo deputado, paga com… orçamento secreto

Por Hugo Souza, no Come Ananás 

O deputado federal Paulo Magalhães (PSD-BA) apresentou nesta quarta-feira, 2, na Comissão de Ética da Câmara, relatório favorável à cassação do colega Glauber Braga (PSOL-RJ).

O motivo, ou melhor, o pretexto é o episódio de abril de 2024 no qual Glauber escorraçou da Câmara, a pontapés, um jovem destacado pela Avanguardia Giovanile Fascista, sigla MBL, para importuná-lo e provocá-lo e insultá-lo em tempo integral.

Se Glauber está no Rio, lá está Gabriel Costenaro em seu encalço. Se Glauber está em Brasília, é lá que Costenaro estará também, bafejando impropérios em seus ouvidos.

“Esta Casa não deve tolerar comportamentos descomedidos e reações imoderadas de seus membros”, disse Paulo Magalhães em seu voto, sem corar.

O jornalista Bernardo Mello Franco recorda nesta quinta-feira, 3, que Paulo Magalhães apareceu referido assim na capa do jornal O Globo do dia 5 de abril 2001: “Socos e pontapés na Câmara. Deputado baiano agride jornalista para defender ACM”.

Sobre o comportamento de Paulo Magalhães na Câmara quando um jornalista lançou um livro sobre os esqueletos dos seu tio ACM, Come Ananás encontrou no arquivos da Folha de S.Paulo uma outra reportagem sobre o episódio, ainda mais contundente que o do Globo.

Segue:

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“Terminou em troca sopapos a visita a Brasília da bancada de deputados estaduais baianos ‘anti-ACM’. No final da tarde de ontem, o jornalista e escritor Maneca Muniz, que acompanhava a comitiva, foi agredido pelo deputado federal Paulo Magalhães (PFL-BA), sobrinho do senador Antonio Carlos Magalhães.”

“Muniz levou um pontapé de Magalhães quando autografava exemplares de seu livro ‘As veias abertas do carlismo’, sobre um conjunto de supostas atividades irregulares nas quais haveria envolvimento do senador.”

Em seu relatório pela cassação de Glauber Braga, o chutador de jornalista que se arvora inspetor de “comportamentos descomedidos” chega ao descomedimento de afirmar que foi o provocado quem provocou o provocador, dizendo que “na data dos fatos em apuração, foi o representado quem abordou Gabriel Costenaro com acusações”.

Na data dos fatos, Gabriel Costenaro ofendeu não algum tio corrupto do representado, mas a mãe de Glauber Braga, que estava doente e viria a morrer dias depois.

Diz uma fábula de Esopo que um lobo viu um cordeiro bebendo água de um rio e tentou encontrar um bom motivo, uma boa acusação para devorá-lo. Como o cordeiro, esperto, rebatesse as acusações com fatos e bom senso, o lobo não demorou para deixar os pretextos de lado e mandar a real:

“Você tem resposta para tudo, não é? Mas vou devorá-lo mesmo assim”.

No fim do seu voto, imediatamente antes de dizer que Glauber Braga merece “a sanção de perda do mandato”, Paulo Magalhães mandou às favas os pretextos e explicitou com assombrosa franqueza o real motivo da ópera-bufa:

“Cabe frisar que as agressões físicas e verbais praticadas pelo representado, sobretudo as ofensas dirigidas ao presidente desta Casa, não só maculam a integridade física e moral dos envolvidos, mas também atingem a honra e a dignidade deste Parlamento e de seus membros. O desrespeito ao presidente configura afronta não apenas à pessoa do ocupante do cargo, mas à própria Casa Legislativa e aos demais deputados que a integram, pois se trata do representante máximo deste Parlamento, responsável por garantir o seu funcionamento regular e a higidez de suas deliberações. Como símbolo da autoridade parlamentar, qualquer insulto à sua figura atinge diretamente o decoro da Câmara dos Deputados, uma vez que o exercício dessa função exige respeito institucional para o pleno exercício das atribuições constitucionais do Parlamento.”

O “presidente desta Casa” a que Paulo Magalhães se refere é, na verdade, o ex-presidente da Câmara Arthur Lira, o que de resto deixa dúvidas sobre desde quando está pronto o voto do relator.

A deputada Sâmia Bonfim (PSOL-SP), companheira de Glauber, não se conteve diante do uivo desavergonhado do último Magalhães da alcateia, e deixou escapar:

“Desgraçado!”.

Na mesma sessão da Comissão de Ética, Glauber Braga insistiu nos fatos, não apenas sobre o pretexto, mas também sobre a razão à vera do processo de cassação do seu mandato, informando o seguinte sobre o “desgraçado”:

“Cruzamento de dados, lista suspensa pelo Sr. ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino, no final do ano passado, R$ 4 bilhões… Deputado Paulo Magalhães, o senhor sabe quem foi o deputado mais votado do Município de Ituaçu? Foi o senhor. Do Município de 11 mil habitantes, ele teve 5 mil votos na cidade. E, na lista suspensa por Flávio Dino, havia duas emendas de orçamento secreto de R$ 2 milhões. Em Belo Campo, foram mais R$ 2 milhões na lista de orçamento secreto indicado pelo deputado; em Presidente Jânio Quadros, mais R$ 2,5 milhões de orçamento secreto indicado pelo relator; em Itaju do Colônia, mais R$ 1,2 milhão de orçamento secreto indicado pelo relator. Isso está numa lista só. Em uma lista só!”

Então ficamos assim: o deputado federal que mais se bateu contra o esquema do orçamento secreto de Arthur Lira, na tribuna da Câmara e acionando o STF, é agora alvo de vingança encomendada e, pelo que indicam dados trazidos pelo deputado, paga com… orçamento secreto.

Como diria Michel Temer, “o Brasil tem uma democracia extraordinária”.

*Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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