Carlos Castilho: A falta de transparência nas pesquisas sobre popularidade de Lula

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Ilustração: PixHere / Creative Commons

A falta de transparência nas pesquisas sobre popularidade de Lula

Por Carlos Castilho*, em seu blog

Desde janeiro as manchetes dos grandes jornais brasileiros têm destacado uma série de pesquisas de opinião pública com uma intrigante característica comum: a sinalização de uma queda continuada na popularidade do governo do presidente Lula.

A coincidência é intrigante porque não estamos às vésperas de eleições, não ocorreu algum erro catastrófico do atual ocupante do palácio do Planalto e muito menos um desastre econômico, tipo surto de desemprego, disparada do dólar ou da inflação.

Normalmente, as pesquisas sobre popularidade de políticos acontecem dois anos antes de uma eleição e funcionam como uma espécie de avaliação da aceitação popular de eventuais candidaturas.

Também podem servir para testar a receptividade de alguma medida importante inserida na agenda pública de debates. Mas as sondagens sobre popularidade do governo Lula não se enquadram em nenhuma destas categorias gerando especulações sobre quais seriam os reais objetivos das consultas.

O fato de as pesquisas terem um viés comum indica um interesse em desenvolver uma percepção pública de que Lula não conta com as simpatias da população.

A divulgação repetida de dados sugerindo uma imagem negativa do governo acaba por condicionar atitudes e posicionamentos das pessoas e configura o exercício da chamada advocacy informativa, ou seja, a promoção pela grande imprensa brasileira de uma ou mais ideias previamente estruturadas.

A razões para a realização de tantas pesquisas sobre um mesmo tema num espaço de tempo tão curto ainda são uma incógnita. Três hipóteses surgem como as mais prováveis:

a) Debilitar agora o governo Lula seria uma estratégia para alimentar expectativas de possíveis candidatos da oposição conservadora nas eleições presidenciais de 2026 e neutralizar articulações visando a reeleição de Lula;

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b) Seria uma forma de desviar a atenção pública sobre o julgamento e possível prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro acusado de tramar um golpe de estado em 2022;

c) Poderia ainda ser uma manobra para minar o prestigio internacional de Lula num momento em que o cenário mundial confere ao Brasil um protagonismo crescente por conta da questão ambiental e da liderança política do país na América Latina.

A questão da transparência

Não há dúvidas de que a questão da popularidade do presidente interessa a muita gente e tem desdobramentos importantes na política nacional.

Por esta razão, é intrigante a ausência de matérias jornalísticas analisando o tipo de público entrevistado, o formato das perguntas, os locais onde as respostas foram colhidas, a metodologia de processamento dos números obtidos.

Sabe-se que as pesquisas de opinião acontecem em contextos definidos e que seus resultados precisam ser interpretados levando em conta estes mesmos contextos.

Como a imprensa é o veículo preferencial na divulgação dos dados das pesquisas de opinião, é obvio que ela tem um papel primordial no desenvolvimento das percepções do público.

Daí a necessidade da preocupação com a questão da transparência tanto dos métodos e procedimentos como dos objetivos que orientaram a realização da pesquisa num momento determinado.

Sem transparência, o público fica privado dos instrumentos necessários para fazer sua própria avaliação dos resultados divulgados e aumentam as dúvidas sobre o que está oculto nos procedimentos adotados pelos pesquisadores e pelos jornalistas responsáveis pela publicação e interpretação dos dados das pesquisas.

A imprensa e o jornalismo existem para servir às pessoas e não a interesses e estratégias políticas ou econômicas. Pelo menos é o que costumam dizer a maioria dos manuais de redação e os principais teóricos da profissão.

*Carlos Castilho é jornalista, é doutor em Mídias do Conhecimento (UFSC) e pesquisador associado do Observatório da Ética Jornalística (objetos/UFSC).

*Este texto não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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