Camila Djurovic: Estratégia bolsonarista das fake news é abertamente baseada em 1964
Tempo de leitura: 5 minPRIMEIRO COMO TRAGÉDIA, DEPOIS COMO FAKE
Camila Alvarez Djurovic*, em Boletim do GMARX-USP
Já é quase lugar comum afirmar que vivemos um novo 1964.
Nós historiadores, que somos normalmente reticentes com esse tipo de analogia, não temos infelizmente conseguido escapar desta.
No terreno da luta ideológica, a questão das fake news parece ser um campo especialmente fértil para traçar esses paralelos.
Em abril de 1963, exatamente um ano antes do golpe que submeteria o país a 21 anos de ditadura, uma CPI instaurada na Câmara dos Deputados investigou uma rede responsável por conduzir uma enorme operação de controle da opinião pública contra o governo de João Goulart.
As acusações iniciais se referiam à interferência de duas entidades de empresários e militares anticomunistas nas eleições parlamentares de 1962.
A CPI denunciou que cerca de 5 bilhões de cruzeiros foram levantados pelo Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD) e pelo Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPÊS) para financiar campanhas de candidatos da oposição, sendo parte dos recursos provenientes do exterior.
Os depoimentos confirmaram que a quantia foi utilizada para apoiar 250 candidatos a deputado federal, 600 a deputado estadual e oito a governador, através da compra de rádios, televisões e jornais, nos quais eram inseridos artigos, comentários e propagandas políticas travestidas de notícias [1]
O jornal carioca A Noite, por exemplo, foi literalmente alugado durante o período da campanha eleitoral.
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O vespertino, que até então tinha uma linha editorial favorável ao governo Goulart, passou a promover abertamente os candidatos da oposição e a intensificar a propaganda anticomunista.
Os recursos angariados pela rede eram também utilizados para a edição de revistas, jornais, panfletos e livros com grande tiragem e distribuição gratuita.
Com a conclusão dos trabalhos da CPI, em agosto de 1963, a Justiça determinou a dissolução definitiva do IBAD.
Apesar dos inúmeros indícios, o IPÊS ficou isento de acusação por falta de provas e continuou exercendo suas atividades conspirativas sem maiores aborrecimentos.
Patrocinado por centenas de empresas nacionais e multinacionais e apoiado pelo consulado estadunidense, o instituto prosseguiu com sua ação editorial, produziu filmes de “doutrinação democrática”, programas de rádio e televisão, realizou seminários e financiou um punhado de grupos civis e militares oposicionistas, como mais tarde comprovaram investigações históricas como a de René Dreifuss [2].
Utilizando como estratégias a propaganda e a disseminação de notícias falsas, a campanha desenvolvida pelo complexo IPÊS/IBAD tinha como objetivo convencer a opinião pública, sobretudo as classes médias, da existência de uma infiltração comunista estrangeira no Brasil, associando a imagem de João Goulart e de seus apoiadores a essa “ameaça vermelha”.
Com efeito, o medo/ódio do comunismo, potencializado pela tensão internacional da Guerra Fria, foi utilizado como pretexto para o golpe de Estado.
Às vésperas do 1º de abril, pesquisas de opinião apontavam que tanto Goulart quanto as propostas das reformas de base possuíam amplo apoio popular.
Entretanto, as mesmas enquetes mostravam a existência de um “virtual consenso anticomunista” e uma grande rejeição às alternativas políticas de esquerda consideradas mais radicais.
Talvez esse fato explique o aparente paradoxo de que, nas pesquisas realizadas imediatamente após o golpe, houve uma forte virada da opinião pública, tendo a maioria dos entrevistados se declarado favorável à derrubada inconstitucional de João Goulart [3].
É possível que, num curto espaço de tempo, a campanha da direita tenha conseguido “colar” o governo Goulart ao “perigo vermelho”, tornando justificável o golpe na visão de muitas pessoas.
Os órgãos e profissionais da imprensa nacionalista foram os primeiros a sofrerem com a repressão da ditadura civil-militar.
Os deputados envolvidos nas investigações sobre o complexo IPÊS/IBAD tiveram os mandatos cassados e alguns foram forçados ao exílio.
O brutal assassinato e desaparecimento de Rubens Paiva esteve intimamente ligado ao seu protagonismo naquela CPI de 1963 [4].
Não é de se estranhar que o general Golbery do Couto e Silva, uma das principais lideranças do IPÊS, tenha sido o idealizador e comandante do Sistema Nacional de Informações (SNI), principal órgão do aparato de vigilância e repressão da ditadura.
Tampouco é inusitado o envolvimento de empresários do IPÊS no lado mais sórdido da repressão, seja na perseguição política dentro das fábricas, no financiamento de aparatos como a Operação Bandeirantes (OBAN) ou mesmo na elaboração de métodos de tortura, como a famigerada pianola Boilesen [5].
O inquérito agora conduzido pelo STF revelou a existência de um grupo de empresários autodenominado Brasil 200 Empresarial, no qual os participantes colaborariam entre si para “impulsionar vídeos e materiais contendo ofensas e notícias falsas com o objetivo de desestabilizar as instituições democráticas e a independência dos poderes”.
É sabido e notório que o mesmíssimo aparato foi fator decisivo para as eleições de 2018, apesar de nenhuma objeção ter sido feita na ocasião por nenhuma das “instituições democráticas”.
Agora que o golpismo bolsonarista se revela cada vez menos um discurso e mais uma ação concreta, elas parecem finalmente acordar para combater o monstro que ajudaram a alimentar. Está mesmo difícil escapar das analogias…
*Camila Alvarez Djurovic é mestranda em História Econômica- USP
[1] BRASIL, Câmara dos Deputados. Relatório da CPI do IBAD e do IPÊS. Vol 1. Depoimento de Hélcio José Domingues França. Brasília, 1963.Arquivos da Comissão Estadual da Memória e da Verdade Dom Helder Câmara. Disponível em: <http://www.acervocepe.com.br/acervo/arquivos-da-comissao-estadual-da-memoria-e-da-verdade-dom-helder-camara>. Acesso em: 22 mar. 2018.
[2] DREIFUSS, R. A. 1964: a conquista do Estado – ação política, poder e golpe de classe. Petrópolis, RJ: Vozes, 1981. Em 2014, a Comissão Nacional da Verdade (CNV) baseando-se nas diversas pesquisas realizadas sobre o tema, reconheceu a atuação antidemocrática do complexo IPÊS/IBAD no período.
[3] Na pesquisa do IBOPE realizada em São Paulo em maio de 1964, 54% dos entrevistados afirmaram considerar que a deposição do presidente Goulart constituiu uma medida benéfica para o país e 70% disseram acreditar que a situação do Brasil tendia a melhorar. Na mesma pesquisa, 34% dos entrevistados atribuíram a queda de Goulart ao fato de que o presidente “estava levando o Brasil para um regime comunista”. MOTTA, Rodrigo Patto Sá. O golpe de 1964 e a ditadura nas pesquisas de opinião. Revista Tempo, vol. 20, 2014, p. 1-21.
[4] POR QUE Rubens Paiva foi morto. Instituto Humanitas Unisino, 24 nov. 2012. Disponível em: <http://www.ihu.unisinos.br/noticias/515797-por-que-rubens-paiva-foi-morto>. Acesso em 27 mai. 2020.
[5] Aparelho de tortura por eletrochoque importada dos EUA pelo empresário Henning A. Boilesen, membro do IPÊS e da FIESP.
Comentários
Martha Hirsch Aulete
E além de fake news, somos obrigados a assistir lixo de mau gosto!
Veja a Globo por exemplo. A Globo, digo sobretudo a TV aberta, — pois a GloboNews é de noticia apenas. A aberta é realmente um lixo de mau gosto artístico e cultural (cultura de massas).
E isso a Globo é exatamente igual ao PT. A Globo faz exatamente o estilo cultural que o PT sempre venera a adora, a saber: O estilo Kitsch.
O PT é Kitsch. A Globo é Kitsch.
O PT odeia a alta cultura. Se escamba sempre para a baixa cultura. O PT nivela tudo por baixo! Sobretudo a educação básica. E a arte. Idem a cultura — o PT adora um oba-oba.
Bom…, o PT “se acha”…
lula é pior, pois se trata de um narcisista apedeuta contumaz.
Mas o PT é Kitsch. O pior partido de toda América. Acabou aquela baranguice enorme de “PÁTRIA EDUCADORA”. [Eta frasezinha de João o Milionário Santana, slogan, bregona. E falsa]. Além de ser picareta e vigarista. Muito pior que mentiras ou “fake news”…
Nunca vi partido mais bregaço, mais Kitsch, mais cafonérrimo, mais bregão que o PT. Há muito partido ruim no Brasil (como você mesmo fala no texto acima), mas de todos o PT é o pior.
E A ESTÉTICA Petista, hein? O estilo petista de ser? Cujo gosto musical — sertanejo universitário — é apenas lixo e o tipo de música fraca e curta que gostam de produzir e de ouvir e que se faz hoje em dia (estética petista).
o PT é um lixão grosseiro em relação a cultura e a educação: totalmente descartável, os projetos bregas petistas. O PT tem um mau gosto enorme. É Kitsch. O PT é barango, nivela tudo por baixo. Sobretudo a educação.
Dias
Tudo isso é medo das manifestações Marta Bolsonarista?
Saiba que nem bem começamos viu!
Nós vamos tirar seu ‘mitinho’ do Planalto e vamos devolve-lo ao esgoto de onde ele nunca deveria ter saído.
Pode aguardar querida.
Mateus
Com certeza você está entre aqueles que pensam que a Terra é plana, né.
Solange
O desespero de vocês está tão grande assim para você vir aqui destilar argumentos estapafúrdios?
Você está perdendo literalmente o seu tempo.
Esse blog deve estar bombando. Só pode.
Carlos Augusto de Araujo Dória
A história se repete: primeiro ajudando a derrubar um presidente; agora, ajudando a eleger outro.
Carlos Dória, editor do Blog de Um Sem Mídia
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